Pé de Cedro

“Que saudade pé de cedro,

do tempo em que te plantei…”

Em 1959, o jovem produtor artístico e compositor Zacarias Mourão, que residia em São Paulo, retornou a sua cidade natal, a aprazível Coxim, no norte do atual Mato Grosso do Sul, para visitar sua família.

Lá chegando, se surpreendeu com um frondoso cedro que ele próprio havia plantado na época em que, ainda menino, brincava nas ruas e nas correntezas do caudaloso rio que dá nome à cidade.

Surgiu então a letra do famoso rasqueado “Pé de Cedro”, que logo em seguida recebeu música do compositor mineiro Goiá (Gerson Coutinho da Silva). Essa narrativa familiar, apesar de contestada por alguns memorialistas, converteu a canção em símbolo de uma época em que a música “caipira” se transformava em música “sertaneja”, incorporando referências urbanas e consolidando seu espaço na indústria fonográfica nacional.

Em 1963, a dupla Ninico e Senim fez a primeira gravação da canção, acompanhada por violão e sanfona. Alguns meses depois, em outra gravadora, a dupla Tibagi e Miltinho lançou a segunda gravação incorporando um naipe de instrumentos de sopro de metais e baixo elétrico. Esse disco impulsionou a carreira de Tibagi e Miltinho e tornou-se a gravação referencial de “Pé de Cedro”.

 

Nas duas gravações, os intérpretes não abrem mão do canto em terças característico das duplas caipiras. Porém, o curioso é que, se a dupla Ninico e Senim utiliza com certa parcimônia o recurso de falsetes nas notas agudas, a dupla Tibagi e Miltinho assume os falsetes que, incorporados aos metais, remetem aos padrões da música mexicana ao mesmo tempo em que procura se conectar à geração que alguns anos depois se identificaria com a Jovem Guarda.

Conhecido hoje como rasqueado (gênero musical que havia surgido como uma espécie de “abrasileiramento” da polca e guarânia paraguaia no início dos anos 1940), nesses dois discos de 1963 “Pé de Cedro” é rotulada como polca [paraguaia] e não como rasqueado, confirmando sua conexão com as fronteiras de Mato Grosso do Sul com o Paraguai.

Apesar das referências mexicanas evidentes na gravação de Tibagi e Miltinho (referências características do estilo da dupla), “Pé de Cedro” pode ser considerado um importante exemplo dos intensos processos de apropriação da música paraguaia e sua hibridização com a música caipira brasileira ocorrida nas décadas de 1940/50, fenômeno que ocorreu à sombra da construção de uma identidade musical nacional construída a partir da cidade do Rio de Janeiro, então capital do país.

Em pouco tempo, “Pé de Cedro” tornou-se bastante popular no interior das regiões sudeste e centro-oeste. Porém, é entre os moradores de Coxim e de Mato Grosso do Sul em geral que “Pé de Cedro” se converteu em símbolo da identidade regional, histórica e socialmente conectada com o Paraguai, em cujas fronteiras encontramos intensas trocas e identidades comuns que desafiam as divisões geopolíticas.

Pé de Cedro

Zacarías Mourão e Goiá

Milonga das três nações

Tocando em frente

Estrangeiro

Batendo água

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